Graciliano Ramos: a prosa nua
Como romancista, Graciliano Ramos alcançou raro equilíbrio ao reunir análise sociológica e psicológica. Como poucos, retratou o universo do sertanejo nordestino, tanto na figura do fazendeiro autoritário quanto na do caboclo comum, o homem de inteligência limitada, vítima das condições do meio natural e social, sem iniciativa, sem consciência de classe, passivo diante dos poderosos.
Contudo, em Graciliano o regional não caminha na direção do específico, do particular ou do pitoresco; ao contrário, as especificidades do regional são um meio para alcançar o universal. Suas personagens, em vez de traduzir experiências isoladas, revelam uma condição coletiva: a do homem explorado socialmente ou brutalizado pelo meio.
Ao longo da narrativa da obra Vidas secas, o personagem Fabiano é caracterizado de três formas diferentes:
" - Fabiano, você é um homem"
" encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra'
" - Você é um bicho, Fabiano."
" Parecia um macaco"
Outro traço que caracteriza o romance de 30 é o emprego de novas técnicas narrativas, principalmente aquelas que sustentam a introspecção e a análise psicológica de personagens. É o caso, por exemplo, do discurso indireto livre, que funde a fala do narrador à fala ou ao pensamento da personagem:
"Fabiano ia satisfeito. Sim senhor, arrumara-se."
"Olhou os quipás, os mandacarus e os xique-xiques. Era mais forte que tudo isso, era como as catingueiras e as baraúnas."
"Entristeceu. Considerar-se plantado em terra alheia!"
Graciliano Ramos não foi apenas romancista; escreveu, ainda, contos ( Histórias Incompletas, Insônia, Alexandre e outros heróis), crônicas (Linhas tortas, Viventes das Alagoas) e impressões de viagens (Viagem).
O autor de Vidas secas sobressai entre os demais de sua época, não só pelas qualidades universalistas que apresenta, mas sobretudo pela linguagem enxuta, rigorosa e conscientemente trabalhada, no que mostra o legítimo continuador de Machado de Assis na trajetória do romance brasileiro.
BOA LEITURA!