Nossa 3ª, 4ª e 5ª leituras- Obras românticas - O Guarani, Iracema e Senhora, de José de Alencar
O Romantismo surge no Brasil poucos anos depois de nossa independência política (1822). Por isso, as primeiras obras literárias e os primeiros artistas românticos se mostram empenhados em definir um perfil da cultura brasileira, no qual o nacionalismo torna-se um traço essencial.
Em um contexto político, a expressão nacionalismo e indianismo aflora em um momento em que o país recém- independente buscava a afirmação de sua personalidade, e ficava mais evidente quando da vinda da família real para o Brasil.
O nacionalismo era o motivo exaltador para o momento de transição cultural em todo o mundo. Logo, o nativo era a figura denominada mola mestra para justificar a origem da sociedade brasileira, uma vez que a Coroa precisava de uma figura para seu discurso ideológico. Daí a importância do nacionalismo, da necessidade de afirmação da personalidade, evidenciados na literatura romântica.
O romance brasileiro e a busca do nacional
Nas décadas que sucederam a Independência do Brasil, os romancistas empenharam-se no projeto de construção de uma cultura brasileira autônoma. Esse projeto exigia dos escritores o reconhecimento da identidade de nossa gente, nossa língua, nossas tradições e também de nossas diferenças regionais e culturais. Nessa busca do nacional, o romance voltou-se para os espaços nacionais, identificados como a selva, o campo e a cidade, que deram origem, respectivamente, ao romance indianista e histórico (a vida primitiva), ao romance regional ( a vida rural) e ao romance urbano ( a vida citadina). José de Alencar, o maior romancista do nosso Romantismo, escreveu obras que enfocaram esses três aspectos, como O guarani, romance histórico-indianista, Senhora, romance urbano e O gaúcho, romance regional.
José de Alencar e o romance indianista
As principais realizações indianistas em prosa de nossa literatura são três romances de José de Alencar: O guarani (1857), Iracema (1865), e Ubirajara (1874).
Nas três obras, o ambiente é sempre a selva, porém com algumas diferenças: em
O guarani, o índio Peri vive próximo aos brancos; em
Iracema, o branco é que vive entre os índios;
Ubirajara é o único romance que trata apenas da vida entre os índios.
O guarani: o mito da povoação
O guarani, romance histórico-indianista, foi publicado pela primeira vez, sob forma de folhetim no Diário do Rio de Janeiro, em 1857.
A obra se articula a partir de alguns fatos essenciais: a devoção e fidelidade de um índio goitacá,
Peri, a
Cecília; o amor de
Isabel por Álvaro e o
amor deste por Cecília; a morte acidental de uma índia aimoré, provocada por D.Diogo, e a consequente revolta e ataque dos aimorés, ocorrido simultaneamente a uma rebelião dos homens de D.Antônio, liderados pelo ex-frei Loredano, homem ambicioso e devasso que queria saquear a casa e raptar Cecília.
Durante o ataque, D.Antônio, ao perceber que não havia mais condições de resistir, incumbe Peri de salvar Cecília. Os dois partem e são supreendidos por uma tempestade, que se transforma em dilúvio. Peri conta então a ela a lenda indígena segundo a qual Tamandaré e sua esposa se salvaram de um dilúvio abrigando-se na copa de uma palmeira desprendida da terra e alimentando-se de seus frutos. Ao término da enchente, Tamandaré e sua esposa desceram da palmeira e povoaram a Terra.
As águas sobem, Cecília se desespera... A lenda de Tamandaré parece que irá se repetir.
José de Alencar e o romance regionalista
Coube ao romance regionalista, mais do que aos romances indianista, histórico e urbano, a missão nacionalista que o Romantismo, se atribuiu de proporcionar ao país uma visão de si mesmo. Estendendo o olhar para os quatro cantos do Brasil, o romance regional buscou compreender e valorizar as características étnicas, linguísticas, sociais e culturais que marcam as regiões do país e diferenciam umas das outras.
Sem apoio em modelos europeus, o romance regionalista romântico teve de abrir sozinho seus próprios caminhos. Portanto, constituiu em nossa literatura uma experiência nova, que exigiu dos escritores pesquisa e senso de observação da realidade.Como resultado desse empenho, os romances regionais românticos deram um passo decisivo no rumo da tão desejada autonomia cultural brasileira.
José de Alencar e o romance urbano
Tanto na Europa quanto no Brasil, o romance urbano, pelo fato de tratar das particularidades da vida cotidiana da burguesia, conquistou um enorme prestígio entre o público dessa classe. Esse êxito não apenas teve como consequência a consolidação e o amadurecimento do romance como gênero, mas também preparou caminhos para voos literários mais altos, representados pelos romances urbanos de Machado de Assis, que surgiram alguns anos depois.
Alencar e a crítica social
Além de ter se dedicado ao romance indianista e ao romance regional, José de Alencar foi também um de nossos melhores romancistas urbanos. Suas obras, além de conter os ingredientes próprios do romance urbano romântico - intrigas amorosas, chantagens, amores impossíveis, peripécias - conseguem analisar com profundidade certos temas delicados daquele contexto social. Em Senhora são abordados os temas do casamento por interesse, da independência feminina e da ascensão social a qualquer preço.
Senhora
Publicada em 1857, Senhora é uma das últimas obras escritas por Alencar. Ao tematizar o casamento como forma de ascensão social, o autor deu início à discussão sobre certos valores e comportamentos da sociedade carioca da segunda metade do século XIX.
Embora Senhora ainda esteja presa ao modelo narrativo romântico, que considera o amor como o único meio de redimir todos os males, a obra apresenta alguns elementos inovadores, que anunciam a grande renovação realista, tais como a vigorosa crítica à futilidade dos comportamentos e à fragilidade dos valores burgueses resultantes do então emergente capitalismo brasileiro e certo grau de introspecção psicológica.